Eu já estudei muito para saber que isso não vale a pena”, ele me disse e eu bêbada, caindo aos pedaços, juntando o que não tinha para conseguir mais tequila. “Não vale a pena, é? E o que vale a pena? Por que tem que valer a pena?”, eu perguntei, em disparada, contando as moedas. “Quero dizer, sofrer por alguém não vale a pena, mas e aí o que que você faz? Pelo que que a gente vai sofrer, então? Todo mundo quer sofrimento, todo mundo tira dor do cu e exibe, porque é isso que faz a vida rodar.”, continuei. Ele me olhava cheio de defesas e certezas e eu bêbada. “Não adianta. A gente gosta de sofrimento.”, “E o que te fez chegar a essa conclusão?”, ele perguntou, despreocupado, coberto de razão em cada fio de cabelo. “O que? Olha você aí, bebendo essa cerveja barata, usando essa roupinha cara, bancando o estudado e com esse olhar de dor, esperando só uma boceta chegar pra você poder enfiar a cara e gemer sua dor do abandono de um amor, da falta de carinho da sua mãe, de toda merda que você viveu. Você só tá esperando uma próxima pessoa que tenha pena de você, te cuide um tempo, te ame, qualquer porra que demonstre carinho. É assim, cara. Conta as moedas pra mim, vê se dá pra mais um copo.”. Ele pegou as moedas que pus no balcão, sem deixar de me olhar. “E outra coisa. Se não houver reciprocidade, você some. Você chora e some, porque amor ou alguma merda sem reciprocidade, não serve. Todo mundo quer amar e ser amado, gostar e ser gostado, e até ter os mesmos gostos. Se eu não gosto da sua banda preferida, você nem olha na minha cara. É tudo um jogo muito cansativo. Dá vontade jogar todas as peças foras, queimar essa baralho, mas o mundo não aceita mudar o jogo. É sempre o mesmo, e o mesmo e de novo o mesmo. Obrigada.”, falei, pegando o copo de tequila e virando-o. “Quantos anos você tem mesmo?”, ele perguntou, me olhando com as sobrancelhas crespas. “Por quê?”, eu o olhei. “Como você sabe dessas porras? Quem te disse?”. Eu ri, olhando para o balcão. “Ninguém me disse porra nenhuma. Tá estampado na nossa cara. Queremos jogar sempre o mesmo jogo porque é mais fácil ganhar. Ai, cara, não tô bem. Me leva pra casa.”, me levantei, segurando em seu braço. “Você vai me falar mais sobre isso?”, perguntou, me encarando. “Só se o sexo for bom.”, ri. Ele me olhou meio bobo e me segurou pela cintura, me ajudando a andar. “Para onde vamos? Onde você mora?”, me perguntou. “Como assim, para onde vamos? Pra sua casa, ué. Tô sem casa.”. Ele parou de andar, me olhando, “Você é louca.”. Eu ri e vomitei.
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Clarice (via
desgoste)